Ovos Industriais

Se eu lhe mostrar alguns dos vídeos dos standards da indústria dos ovos, dir-me-á: “Isso cá em Portugal não é assim, isso é um caso isolado”.

No entanto, não se esqueça que existe um objetivo que é global e que se verifica em todas as corporações e empresas: lucro.

De forma a maximizar o lucro de uma empresa, neste caso de produção de ovos, é preciso uma forma de automatizar o processo.

Standards na Indústria

Na indústria as galinhas são mantidas em gaiolas, com uma área extremamente reduzida, que não lhes permite abrir as asas ou movimentar.

Nos pavilhões onde estes animais se encontram, é também usada iluminação artificial para estas não dormirem e para manipular a percepção das estações do ano, com finalidade aumentar a produção de ovos.

Galinhas Criadas ao “Ar Livre”

Caso esteja a pensar que a solução para o problema é comprar ovos de galinhas criadas ao “ar livre”, pense de novo. Porque não é aquilo que parece.

Para a indústria a definição de ar livre é ter milhares de galinhas num pavilhão sem gaiolas, onde todas as galinhas estão amontoadas.

Ao retirar as gaiolas, estes animais, por vezes ainda têm menos espaço para se movimentar do que teriam numa gaiola. Num ambiente destes, os animais tornam-se agressivos e atacam-se uns aos outros, pelo que a indústria procede à sua debicagem.

Debicagem: Processo de queima e corte do bico da galinha, sem anestésico.

Foto: PETA

Para as aves, o bico é uma parte muito sensível, semelhante ao que um dedo é para um humano. Estes animais vivem o resto das suas curtas vidas em dor crónica causada pela debicagem, semelhante ao síndrome de membro fantasma num humano.


Ovos Caseiros e de Quintal

Como forma de continuar a consumir ovos e não apoiar diretamente a indústria, a maior parte das pessoas em transição para veganismo ou vegetarianismo são confrontadas com o conceito de criação de galinhas de quintal, a fim de consumir os ovos por elas postos.
Aqui no SejaVegan recomendamos sempre uma transição saudável para o veganismo. Não é preciso deixar todos os alimentos animais do dia para a noite, no entanto, o conceito do veganismo não apoia o consumo de ovos de galinha de quintal.
Extremismos? Não. Leia com atenção.

Problema nº1 : Compra de Galinhas para o Quintal

Galinhas para quintal, podem ser obtidas de duas maneiras:
  • Compradas a um criador (industrial ou local)
  • Adotadas/resgatadas da indústria.

Criadores

Comprar galinhas a um criador, quer seja a um criador industrial ou no mercado local, não é de todo coerente com a filosofia vegan.
Para um criador de galinhas, a visão sobre o animal é utilitarista. O valor da vida do animal é baseado no seu valor económico e aqueles que não servem para vender (galos e galinhas incapazes de produzir ovos ), são mortos.
O criador não vai deixar que o animal, sem valor económico, morra de “velhice”.

Criador Industrial

Na indústria de criação de galinhas poedeiras (galinhas que produzem ovos) são usadas incubadoras, armários com gavetas onde são incubados centenas de ovos, para que nasçam os animais (machos e fêmeas).
Após o seu nascimento, prosseguem para um tapete rolante (“linha de montagem”) onde os trabalhadores determinam o sexo dos animais.

A maior parte dos machos seguem para a trituradora ou sacos de plástico e as fêmeas seguem para venda ou para pavilhões onde põem ovos durante toda a sua vida.

Foto : Animal Equality International

Galinhas do Mercado Local

No caso da compra no mercado local, o único aspecto que muda será o processo, a finalidade é a mesma. Tanto para um criador industrial como local, assim que a galinha deixar de pôr ovos, será abatida.
Aumentar a procura de galinhas no seu mercado local é incentivar os vendedores a criarem mais galinhas nos seus quintais. A maioria dos vendedores vende também na sua bancada os galos para abate ou abate-os mesmo no local de criação (muitas vezes são casas).

Uso de Galinhas Adotadas/Resgatadas

Imagine o seguinte cenário:
Uma pessoa resgata as galinhas da indústria, que são postas no seu quintal onde as galinhas põem ovos e morrem de velhice.
Este é um cenário cujo o aparecimento é comum numa conversa entre vegano e um não vegano. É uma forma de tentar arranjar uma “falha” na filosofia de forma a tentar encontrar maneiras de continuar a consumir ovos sem remorsos. Isto porque aparenta ser um cenário em que existe uma relação simbiótica entre o humano e as galinhas.
Claro, que a resposta depende da consciência e filosofia de cada um, no entanto, veja a explicação porque é o veganismo é contra esta prática.

É aqui que a vemos com claridade a distinção entre veganismo como filosofia de vida e vegetarianismo estrito como dieta.

O veganismo visa eliminar qualquer forma de exploração animal desnecessária.
É uma filosofia anti-antropocentrista, ou seja, pretende abolir a ideia de que os humanos são o centro do ecossistema e de que estão acima de outros seres, eliminando a ideia de que os animais estão aqui para nos servir.
Ser vegano é acreditar que um animal tem o direito de viver a sua vida, livre de exploração humana.

Não interessam as condições em que a exploração (galinha criada ao ar livre vs industrial) é feita, não interessa se é com morte premeditada por humanos ou não, a vida de um animal tem valor intrínseco para si mesmo, tendo o direito de viver uma vida livre de exploração assim como qualquer humano.

O Custo de Pôr Ovos

Pôr ovos é um processo desgastante para a galinha. A evolução natural não é a responsável por dar a capacidade à galinha de por centenas de ovos por ano (como acontece hoje em dia), mas sim uma engenharia genética feita pela mão do homem .

A galinha selvagem Junglefowl deixa apenas 10-15 ovos por ano
[1]https://www.researchgate.net/publication/231935388_Overview_of_chicken_taxonomy_and_domest…  e a sua esperança média de viva é muito superior à da galinha domesticada, podendo viver até aos 15 anos!
 
O processo que tornou as galinhas em autênticas “máquinas” de pôr ovos foi o processo de reprodução selectiva iniciado há, pelo menos, 5,400 anos [2]http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0039171 pelo homem, com fim de domesticar o animal para uso pessoal.
Naturalmente, uma galinha que não tenha sido geneticamente modificada pelo homem, apenas põem 10-15 ovos por ano, no entanto, as galinhas de hoje em dia põem centenas, com um custo elevado.
A elevada frequência com que estes animais põem ovos, leva a uma esperança média de vida muito baixa, pode levar a tumores, desnutrição, sobrepeso, prolapso uterino, enfraquecimento ósseo e ovo vinculativo (ovo que fica preso e é expelido lenta e dolorosamente).
As galinhas comem os seus próprios ovos

Também devido à elevada frequência com que estes animais põem ovos, é comum desenvolverem deficiências nutricionais como a falta de cálcio, que leva a enfraquecimento ósseo.

Por essa razão, se o humano não lhe tirar os ovos, estes animais, de forma a tentar colmatar essas deficiências, comem alguns deles.
Pensado no Futuro : É um incentivo ao consumo de ovos
 
Perpetuar a ideia que comer ovos criados em casa é moralmente correcto é dar um incentivo ao consumo de ovos. Se todos acreditassem que comer ovos caseiros é correcto, duas coisas aconteceriam:
  • A procura de ovos caseiros aumentaria, aumentado uma maior necessidade de produção
  • Mais pessoas comprariam galinhas para ter no quintal, alimentando a necessidade de criar mais animais para este propósito

Questão proposta: Mesmo se não concordar com a não exploração de um animal caseiro. Pensando no futuro, seria uma opção viável todos terem galinhas caseiras? De onde se iriam obter as galinhas para criação?

Por estas razões o veganismo defende uma nova visão sobre o mundo. Os animais não estão aqui para uso humano.

O humano enquanto espécie dominante, deverá tratar as espécies e seres sencientes que estão à sua mercê com compaixão e respeito pela sua liberdade, assim como gostaríamos que fizessem por nós caso nos encontrássemos na posição destes animais.

Referências   [ + ]