Atenção: Neste artigo não pomos em causa a dedicação e preocupação que os cuidadores dos animais nos zoológicos e aquários têm pelos animais cativos, é uma crítica à existência de zoológicos e aquários.

Antes de começar a ler o artigo, relembre-se que um zoológico é diferente de um santuário animal ou um parque nacional natural. Um santuário é uma instalação onde os animais, resgatados de industrias exploradoras ou salvos de atividades como a caça, podem viver até morrerem ou até lhes serem encontrados uma nova “casa”. Os animais residentes num santuário não são comprados, vendidos, trocados, vítimas de testes ou usados para entretenimento humano.

Como todos os fenómenos que acontecem na sociedade e civilização, a existência de zoológicos merece ser alvo de uma análise.

Primeiro de tudo, devemos olhar para o assunto de um ponto de vista ético, olhando através dos olhos dos que mais sofrem com a sua existência: os animais cativos.

“Zoochosis”

O sofrimento dos animais criados em cativeiro é tão evidente e comum que já tem um termo específico.

“Zoochosis”, termo introduzido por Bill Travers em 1992 define o comportamento anormal que animais em cativeiro desenvolvem. Na presença desta patologia os animais demonstram comportamentos como:

  • Sacudir / Balançar a cabeça repetidamente
  • “Pacing”  – Caminhar de um lado para o outro, repetindo sempre no mesmo padrão
  • Balançar o corpo incessantemente
  • Bater em paredes
  • Morder o próprio corpo / auto-mutilação
  • Morder jaulas
  • Etc.

Estes comportamentos são designados por ARB, que significa em Inglês abnormal repetitive behavior, ou seja, comportamentos repetitivos que não se verificam num animal saudável.

Se esta patologia se tornar evidente para o público, o zoológico administra anti-depressivos e/ou tranquilizantes para que estes deixem de exibir tais comportamentos.

Falta de Espaço

A grande parte dos zoológicos/aquários, por muito bons que sejam, ao contrário de alguns  parques naturais, não conseguem competir com o habitat natural de muitas espécies como tigres, leões, elefantes, linces, rinocerontes, hipopótamos, golfinhos, leões marinhos, etc. .

  • O elefante, no seu habitat natural percorre entre 25-48 km num dia, sendo estimulado visualmente pela mudança de cenário, tomando banhos nos rios e procurando alimento
  • Um urso polar cativo tem cerca de 1,000,000 de vezes menos espaço do que teria no seu habitat natural [1]http://www.nytimes.com/2003/10/01/science/zoos-are-too-small-for-some-species-biologists-report.html

Animais de grande porte, por maior que seja o zoológico, sofrerão sempre de falta de espaço e estímulo exterior visto os seus habitats naturais serem de uma dimensão exponencialmente maior.

É importante salientar que existem espécies em que o facto de estarem em cativeiro não demonstra ser algo negativo. É o exemplo do peixe palhaço que é um animal que vive em corais e não necessita de muito espaço.

Zoológicos como Ferramentas de Educação

Muitos acham que os zoológicos têm um grande valor como ferramenta de educação para as crianças e visitantes. Os visitantes podem aprender sobre o comportamento dos animais e obter conhecimento sobre as necessidades e peculiaridades de diferentes espécies.

Errado. Esta ideia não só é moralmente inválida no que toca à justificação do sofrimento que os animais têm de passar ao viver em cativeiro como também está muito distante da realidade.

Primeiramente, o comportamento de um animal em cativeiro é apenas uma sombra do seu comportamento no seu habitat natural. Por exemplo, o comportamento de um urso polar enjaulado é abissalmente diferente do seu comportamento no seu habitat natural, o que torna a aprendizagem no zoológico imprecisa.

Para além disso, não existe nada aprendido no zoológico que não se possa aprender num livro, documentário ou na internet. Sim, é diferente experienciar em primeira pessoa do que ler. No entanto, o nosso prazer não justifica o sofrimento que o animal tem de passar.

Papel dos Zoológicos na Preservação de Espécies

Os animais sofrem, sim. Mas será que podemos justificar moralmente a existência de zoológicos dizendo que é um mal menor? Ou seja, os animais criados nos zoológicos acabam por ser mártires por uma boa causa: a continuação da espécie. Será?

Um dos potenciais argumentos que defendem a existência de zoológicos é a preservação de espécies em vias de extinção.

Antes de entrarmos neste assunto, temos que perceber que a grande maioria dos animais presentes no zoológico não estão em perigo de extinção.

Cerca de 90% dos animais presentes no zoológico são animais selvagens que foram retirados do seu habitat natural e reproduzidos em cativeiro por várias gerações para servir de entretenimento.

Quando compramos um bilhete de entrada no zoológico estamos a apoiar a exploração injustificada de espécies que não estão sequer em vias de extinção.

Dito isto, vamos analisar com uma visão ampla o papel dos zoológicos na preservação das espécies que realmente estão em vias de extinção.

A causa da extinção de espécies de animais é maioritariamente a intervenção humana. No caso dos rinocerontes temos os caçadores furtivos que os caçam para retirar os chifres e no caso dos orangotangos a desflorestação é a sua maior ameaça.

Qual o objetivo da criação de animais em cativeiro?

O objetivo da criação de animais em cativeiro é para que estes quando re-introduzidos no seu habitat natural, se reproduzam e voltem a repor a população da espécie, salvando-a da extinção.

Mas será que é assim tão linear? Será que podemos apenas criar uma espécie em cativeiro e esperar que ela esteja adaptada ao mundo selvagem?

Animais criados em cativeiro perdem capacidade de sobrevivência

Muitos dos animais que estão presentes nos zoológicos são animais que já não têm contacto com o mundo selvagem há várias gerações, o que baixa drasticamente a probabilidade de sobrevivência quando re-introduzidos no seu habitat natural.

Os animais para serem bem sucedidos no mundo selvagem têm que adquirir conhecimentos que os progenitores (já adaptados ao habitat) lhes transmitem, como por exemplo, defesa de território, caçar, táticas de sobrevivência, etc.

Dos 400 pandas que foram criados em zoológicos, apenas 5 foram re-introduzidos no seu habitat natural e apenas 3 sobreviveram [2]https://www.independent.co.uk/news/world/panda-expert-claims-the-international-breeding-programme-has-failed-a6988421.html sem grandes perspectivas de reprodução.

Elefantes são outro exemplo dos efeitos negativos da criação de animais em cativeiro. A taxa de mortalidade de elefantes nascidos em zoológicos é de 40%  (o triplo da taxa de mortalidade de elefantes Asiáticos e Africanos livres).

Os elefantes que conseguem chegar a adultos, muito frequentemente apresentam anormalidades no comportamento (como os apresentados acima) e morrem de doenças causadas pela condições onde estão cativos como artrite e doenças nas patas.

Os nossos esforços no que toca à conservação devem ser canalizados para a conservação dos habitats destes animais e não em removê-los para os criar em cativeiro.

Re-introdução do material genético na população selvagem

Uma das maneiras de conservar uma espécie é aumentar a diversidade genética numa população de animais. Para isso, criam animais em cativeiro e depois libertam-nos no seu habitat natural na esperança que estes se reproduzam com os animais selvagens.

No entanto, o que se verifica é que animais criados em cativeiro preferem reproduzir-se com os outros animais também criados em cativeiro do que com os animais selvagens [3]http://www.abc.net.au/science/articles/2014/11/19/4131096.htm.

Este fenómeno dificulta ou impossibilita o objetivo que estamos a tentar alcançar.

Isto porque se os animais cativos não se reproduzirem com os selvagens, não existe troca do material genético entre eles. Contrário ao desejado, devido aos animais criados em cativeiro apenas se reproduzirem entre si, geram-se sub-grupos que estão em desvantagem evolucionária relativamente aos animais selvagens mais adaptados ao habitat.

“Para recuperar espécies é necessário focarmo-nos nas ameaças que estes animais enfrentam no seu habitat natural. Problemas como perda de habitat, doenças, … ” – Dr Michael Magrath

Hipocrisia dos Zoológicos

Como já documentado na comunidade cientifica, a agropecuária é o maior contribuidor para desflorestação global. Esta desflorestação tem como consequência a perda de habitat para muitas espécies nativas.

Se for a um zoológico é garantido que vai encontrar produtos alimentares de origem animal. É o caso do jardim zoológico de Lisboa que tem um McDonald’s no seu interior.

Se o objetivo de um zoológico fosse realmente a conservação de espécies no mundo, então faria sentido que todos os produtos que existissem dentro desta infraestrutura refletissem a maior preocupação com o ambiente. Se assim fosse, dentro destas infraestruturas, não deveria ser usado plástico ou vendidos produtos animais. Obviamente que não é isto que acontece.

Fará sentido um zoológico, que justifica a sua própria existência com a suposta conservação de espécies, ter um McDonald’s lá dentro?

Fará sentido um zoológico congratular-se pelo seu contributo na re-introdução de uma espécie e ao mesmo tempo apoiar uma industria que destrói o habitat de espécies nativas?

Sofrimento em Nome do Entretenimento

Escolher um zoológico como meio de preservação de espécies, para além de ser ineficiente, como já vimos acima, levanta muitos problemas éticos. Apenas uma pequena percentagem dos rendimentos dos zoológicos são direcionados a iniciativas e práticas dedicadas à conservação da vida selvagem [4]https://www.theguardian.com/environment/radical-conservation/2015/dec/08/zoos-aquariums-conservation-animals-wildlife-funding .

Não nos podemos esquecer que, acima de tudo, os zoológicos são empresas que como todas as outras pretendem lucrar. Para isso, os animais são forçados a dar espetáculos, como é o caso dos golfinhos e leões marinhos. O que torna um zoológico em, nada mais nada menos, um circo.

Ainda que os zoológicos tenham feito o seu papel na conservação de algumas espécies a grande maioria das espécies mantidas em zoológicos não estão sequer em risco de extinção.

Manter uma espécie viva para servir de peça de museu à custa do seu bem-estar como meio de rendimento é antiético.

Soluções

Talvez um dia os zoológicos se pareçam mais com santuários ou parques naturais onde humanos possam visitar os animais e vê-los no seu habitat natural. No entanto, essa não é a realidade dos zoológicos atuais.

Visitar um zoológico é pagar para que animais sejam tratados como peças de museu à custa das suas liberdades, autonomia e sanidade mental. É inaceitável que espécies que não estão em vias de extinção sejam postas em cativeiro para prazer e entretenimento humano.

Mesmo que o zoológico seja bem sucedido na re-introdução de certas espécies no seu habitat natural devemos apoiar outras iniciativas de conservação que não usam os animais como forma de entretenimento.

Nós conseguimos fazer melhor e assim que os zoológicos deixarem de dominar a conversação no que toca a conservação de espécies, diferentes táticas de conservação  como a conservação do habitat natural, santuários e reservas naturais irão começar a tomar a sua voz.

Faça o correcto, em vez de comprar um bilhete para o zoológico envie o seu dinheiro diretamente para santuários animais que você conheça ou iniciativas de conservação dedicadas a preservar a biodiversidade como Save The Chimps , The Elephant Sanctuary, Performing Animal Welfare Society, Global Federation of Animal Sanctuaries, entre outros.

Referências   [ + ]

1. http://www.nytimes.com/2003/10/01/science/zoos-are-too-small-for-some-species-biologists-report.html
2. https://www.independent.co.uk/news/world/panda-expert-claims-the-international-breeding-programme-has-failed-a6988421.html
3. http://www.abc.net.au/science/articles/2014/11/19/4131096.htm
4. https://www.theguardian.com/environment/radical-conservation/2015/dec/08/zoos-aquariums-conservation-animals-wildlife-funding