Sistema Nervoso Complexo

por John Kumiski

Há décadas que neurobiólogos chegaram a um consenso:

Peixes sentem dor e têm capacidade de sofrer assim como os mamíferos e animais terrestres.

São apenas animais que vivem na água, em vez de terra, no entanto, são animais e a sua evolução também lhes garantiu a capacidade para sentir e fugir da dor.

Assim como nós, os peixes têm um sistema nervoso complexo. Estes animais têm nociceptores (receptores de dor) e neurotransmissores como a endorfina, um analgésico conhecido como a “hormona do bem estar”.

Neurobiólogos foram também capazes de listar 20 receptores de dor, chamados de nociceptores, na boca e cabeça de vários peixes.

“A dor é uma adaptação evolucionária que ajuda indivíduos a sobreviver … a perceção de dor não desaparece para uma específica classe taxonómica. “ – Dr. Stephanie Yue [1]http://www.humanesociety.org/assets/pdfs/farm/hsus-fish-and-pain-perception.pdf

Apesar dos peixes terem uma anatomia diferente dos humanos, como a inexistência de o neocórtex, este evoluíram a capacidade para nocicepção (reação à dor, de forma e evitá-la) devido à evolução de diferentes partes do cérebro.

Memória e Dor

Num estudo publicado no jornal de Applied Animal Behaviour Science, peixes-dourados, que foram expostos a elevadas temperaturas, não só reagiam à dor como também mostravam sinais de medo quando expostos na mesma situação [2]http://www.appliedanimalbehaviour.com/article/S0168-1591(09)00105-1/abstract. O que prova que estes animais não só sentem dor, como têm também a capacidade de criar memórias, com intuito de evitar a mesma situação no futuro, assim como se verifica em humanos e na maioria de animais terrestres.

“Este estudo indica que para os peixes, evitar a dor, não é uma reação de reflexo mas sim uma reação que é aprendida, memorizada e variável de acordo com diferentes circunstâncias. Logo, se os peixes sentem dor, a pesca não pode ser considerada um desporto não-cruel.”

– Rebecca Dunlop (Pesquisadora responsável pelo estudo)

Dr. Culum Brown da Universidade de Macquarie, analisou quase 200 estudos nas capacidade cognitiva e experiência sensorial dos peixes e escreve:

“Ao contrário do afogamento de um humano, que morre em cerca de 4-5 minutos porque não conseguem extrair oxigénio da água. Os peixes conseguem sobreviver muito mais, tornando a sua morte muito lenta.”

Em relação à inteligência dos peixes, Dr. Culum também deu o veredicto:

“Os peixes são mais inteligentes do que aparentam. Em várias áreas, como memória, as suas capacidades cognitivas são equiparáveis e, por vezes, excedem as dos primatas não humanos.” [[http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2662297/Fish-feelings-Expert-claims-creatures-experience-pain-way-humans-better-treated.html]]

Relação emocional : Humanos, Mamíferos e Peixes

Imagem por KathmanduPost

Ao contrário do que acontece com cães e gatos, a maioria dos humanos não têm uma relação de compaixão ou empatia direta com a maior parte dos animais aquáticos. Isto porque os seus gritos são silenciosos e não têm muitas semelhanças com os nossos animais de estimação. Não são vistos como animais “adoráveis” ou “fofos” pela maioria.

Culturalmente somos dessensibilizados ao sofrimento dos animais aquáticos, isto porque desportos como a pesca são normalizados e vistos como desportos pacíficos e “naturais”.

No entanto, o aspecto físico de um animal não deverá ditar a maneira como o tratamos ou o seu direito a uma reflexão ética da nossa parte.

O que deverá ser tomado como regra é se o animal em causa, tem ou não a capacidade de sofrer. Se sim, então, o nosso comportamento perante o mesmo deve ser revisto.

Implicações ambientais do consumo de peixe

Oceanos sem Peixe até 2050

A ciência é clara, um estudo recente realizado pela Johns Hopkins Center for a Livable Future, indica que o atual consumo de peixe poderá deixar os oceanos sem os mesmos até 2050.

Nem todas as espécies estão incluídas nesta data, no entanto, grande parte das espécies de peixe que hoje habitam os oceanos podem ser levadas à extinção se nada for feito.

A moda do consumo de gorduras “saudáveis” (omega-3) que o peixe fornece está a levar estes animais à extinção [3]http://news.nationalgeographic.com/news/2006/11/061102-seafood-threat.html.

Captura Acidental

Os métodos de pesca utilizados pela pesca industrial, como a pesca de arrastão, são responsáveis por uma elevadíssima quantidade de capturas acidentais de animais. A pesca de arrastão é um método de pesca muito comum, usado na pesca do camarão e peixe em geral.

Cerca de 1/4 dos animais pescados pela indústria são captura acidental. Animais estes que são deitados mortos de volta para o mar, como golfinhos, orcas, aves marinhas, tartarugas, tubarões e muitas outras espécies.

Quantidade de animais mortos por captura acidental:

  • 100 milhões de tubarões
  • 300.000 cetáceos (baleias, golfinhos e atuns)
  • 100.000 albatrozes

Facto: Uma única passagem de arrasto remove até 20% da fauna e flora do fundo do mar, o que destrói por completo os oceanos e o habitat natural de todos os animais marítimos.

Aquacultura Não é a Solução

Existem muitas controvérsias no que diz respeito às vantagens e desvantagens da produção aquícola.

Alguns autores apontam o regime alimentar das diferentes espécies de pescado como um dos maiores problemas associados a esta prática, uma vez que os peixes são alimentados com rações à base de farinha e óleo de peixe.

Estas matérias-primas são obtidas a partir de peças inteiras, resíduos e outros subprodutos de pescado e, segundo um relatório da FAO, em 2012, foram utilizadas para este fim cerca de 21,7 milhões de toneladas de pescado.

De acordo com o mesmo relatório, estimava-se que, em 2011, aproximadamente 28,8% dos stocks mundiais de pescado já se encontrassem sobre-explorados e 61,3% estivessem perto da sua “capacidade máxima.”

Por cada 1kg de peixe proveniente de aquacultura, são usados 3kg de peixe selvagem.

O processamento de farinhas ricas em proteínas e óleo de peixe não é sustentável e contribui para o aumento da pressão já exercida sobre as comunidades piscícolas.

Saúde

Apesar de peixe ser considerado uma fonte saudável de gorduras, o que poderá ser verdade, no entanto o peixe industrializado e apanhado no mar é um grande portador de toxinas e poluentes, devido à poluição dos oceanos.

Estudos indicam que o peixe, hoje em dia, poderá não ser uma fonte saudável de gorduras pela elevada quantidade de poluentes e químicos incorporados na carne destes animais, tais como:

  • Bifenilos policlorados (PCBs), causador de cancro do fígado e vesícula biliar, infertilidade e problemas oculares
  • Mercúrio, conhecido por danificar seriamente o sistema nervoso e funcionamento do cérebro, especialmente em crianças. Aumenta também o risco de doenças cardiovasculares.
  • Dioxinas, uma das substâncias mais tóxicas conhecidas pelo homem. Reconhecido como altamente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisas do Câncer, é também tóxico para o sistema reprodutivo, crescimento e sistema hormonal.

Outro estudo publicado no The New England Journal of Medicine [4]http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejmoa020157  confirma que, hoje em dia, o peixe é a principal fonte de mercúrio, o que é alvo da preocupação dos profissionais de saúde.

Existem muitas outras fontes de gordura e proteína mais saudáveis nos nossos supermercados. Opte por alternativas ao peixe e à proteína animal.

Conclusão

Para muitos não é nada de novo, no entanto, as evidências são bem claras: peixes são animais,  sentem dor e têm capacidade de sofrer. Pelo que é necessário revermos a nossa atitude perante os mesmos, assim como certos “desportos” como a pesca e categorizá-los de acordo com as nossas normas morais.

Lembre-se, nem tudo o que é tradição é sinónimo de ético. A escravatura já foi tradição, no entanto, não tem uma justificação moral.

Veganismo visa excluir todas as formas de exploração e sofrimento, na medida do praticável. Junte-se ao movimento e escolha um estilo de vida mais saudável e ético. Por si, pelo planeta e pelos animais.

Referências   [ + ]