Vegetarianismo e Cancros do Sistema Digestivo

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Este artigo baseia-se nas informações encontradas no site NutritionFacts.org, que é organizado pelo médico Dr. Michael Greger.

Cancro Colorrectal

A pele, os pulmões, e os intestinos são os principais locais de trocas com o meio exterior. Se esticarmos todas as bolsas e pregas dos pulmões ou dos intestinos, pode atingir-se uma área de dezenas de metros quadrados. O sistema digestivo lida com quilos de comida todos os dias, pelo que faz sentido que a comida possa ser um dos principais factores do cancro colorrectal.

Devido ao seu consumo de fibra, um vegetariano tende a produzir uma quantidade maior de fezes e a expulsá-las mais rapidamente, em 1 dia, enquanto que pessoas em dietas omnívoras típicas podem demorar 4 a 5 dias. Num estudo de 23 populações em todo o mundo, a taxa de cancro do cólon dispara quando o peso das fezes é menor.

É também importante o tipo de fezes. Tem havido recentemente uma revolução na medicina. As bactérias que temos nas fezes podem considerar-se um orgão, pois desempenham funções no corpo. O tipo de bactérias presentes depende do tipo de dieta que consumimos. Se comermos carnes e ovos produzem-se compostos como o TMAO ou o amoníaco, que são tóxicos. Se comermos vegetais, ocorre a produção de ácidos gordos de cadeia curta como o butirato, que abranda o crescimento de células cancerosas e activa a morte celular programada (apoptose) dessas células.

Incidência

É um dos cancros mais comuns, ocorrendo com a probabilidade de um em vinte. É também dos mais tratáveis se sinalizado cedo. Estima-se que 70% dos casos sejam evitáveis.

No Estudo de Saúde do Pessoal de Enfermagem de Harvard e no Estudo de Seguimento dos Profissionais de Saúde, que acompanharam centenas de milhares de pessoas, o consumo de carne vermelha estava associado a um risco maior de cancro.[1]Red Meat Consumption and Mortality: Results from Two Prospective Cohort Studies Um estudo (o NIH-AARP) que seguiu durante décadas 545 000 homens e mulheres entre os cinquenta e os setenta anos, chegou também à conclusão que o cancro estava ligado à ingestão de carne. [2]Meat intake and mortality: a prospective study of over half a million people.

Num estudo de 30 000 californianos durante seis anos verificou-se que um maior consumo de carne estava associado a um risco maior de cancro do cólon. A carne branca pareceu ainda pior. [3]Dietary risk factors for colon cancer in a low-risk population.

Poderá haver uma diferença de até 8 vezes na incidência de cancro colorretal entre os dois extremos de uma dieta rica em vegetais e pobre em carne, e de uma dieta rica em carne e pobre em vegetais, pelo que será importante não só cortar na carne mas aumentar a ingestão de vegetais [4]Diet and colorectal cancer: a case-control study in Greece.. Segundo outro estudo, as pessoas que comiam pelo menos 30g diários de leguminosas apresentam uma probabilidade de recorrência de pólipos pré-cancerosos até 65% menor.[5]High dry bean intake and reduced risk of advanced colorectal adenoma recurrence among participants in the polyp prevention trial.

Em comparação com os EUA, parece haver uma taxa 10 vezes menor de cancro colorretal na Índia, o que eventualmente se deverá à elevada percentagem de vegetarianos nesse país, ou ao seu consumo de cúrcuma.

Factores que podem contribuir para a doença

O ferro é um pró-oxidante, podendo causar estragos no ADN. O corpo humano não tem um mecanismo específico para se livrar do excesso de ferro, por isso evoluiu para regular com precisão a quantidade de ferro ingerido. No entanto isto só funciona com o ferro de origem vegetal (não-heme), pois o ferro de origem animal (heme) não é bloqueado, podendo causar mais estragos.

As aminas heterocíclicas, que são substâncias carcinógenas formadas quando se cozinha o tecido muscular dos animais, estão associadas ao cancro do cólon, assim como as nitrosaminas presentes nos artigos de charcutaria.

A proteína animal também estimula o factor do crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), que pode estimular o crescimento do cancro. A gordura saturada animal pode dar origem a ácidos secundários da bílis, que podem ser cancerígenos. Outros compostos cancerígenos são os poluentes como as dioxinas presentes em ovos e peixe.

Factores protectores

Fitatos

LentilhasEstes componentes das sementes (incluindo leguminosas como o feijão ou a lentilha, cereais integrais e frutos secos) parecem ser úteis para a prevenção, reabilitação, e tratamento do cancro. Por exemplo, desintoxicam o corpo do excesso de ferro, que de outra forma pode provocar uma espécie perigosa de radical livre: os hidroxilos. [6]Dietary suppression of colonic cancer. Fiber or phytate? A dieta ocidental padrão ingere altos níveis de ferro-heme através da carne, mas carece dos fitatos para o desintoxicar.

Estudos feitos em placas de Petri revelaram que os fitatos, inibem o crescimento de praticamente todas as células humanas cancerosas testadas até agora – incluindo cancros do cólon, mama, colo do útero, próstata, fígado, pâncreas e pele [7]Protection against cancer by dietary IP6 and inositol., sem afectarem as células normais. Os fitatos entram na circulação e são rapidamente absorvidos pelos tumores.

Os fitatos aumentam a actividade das células exterminadoras naturais, um tipo de glóbulos brancos que formam a primeira linha de defesa do corpo, procurando e eliminando as células cancerosas. Os fitatos afectam o abastecimento de sangue ao tumor, [8]Anti-angiogenic activity of inositol hexaphosphate (IP6). e podem mesmo transformar as células cancerosas em não-cancerosas, o que foi verificado in vitro com células de cancro do cólon, mama, fígado, e próstata.

Os fitatos estão ligados a menos doenças cardiovasculares e a menos pedras nos rins e participam em processos importantes do corpo, à semelhança das vitaminas. Pesquisas recentes mostraram, que ao contrário do que se pensava, os fitatos não provocam osteoporose.

Cúrcuma

A cúrcuma, também vendida com o nome de “açafrão”, e que é um constituinte do caril, poderá ter um efeito preventivo. Num estudo com fumadores, que desenvolvem mais “focos de cripta aberrantes”, (o primeiro estágio, ainda benigno, do cancro colorrectal) verificou-se que a curcumina, um componente da cúrcuma, diminuiu em até 40% o número dessas estruturas. E no segundo estágio da doença, os pólipos já desenvolvidos? Depois de seis meses a tomar curcumina e outro fitonutriente chamado quercetina, encontrado em cebolas roxas e uvas, diminuiu o número e o tamanho dos pólipos em mais de metade.  Mesmo em pacientes com cancro declarado, cerca de um terço viram a progressão do cancro retardado com extrato de cúrcuma. Tudo isto sem efeitos secundários, que são comuns na quimioterapia e radioterapia.

Frutos Vermelhos

Morangos e AmorasOs frutos vermelhos são o tipo de alimento que numa placa de Petri mais efeito tem contra células de diversos tipos de cancros. Os frutos vermelhos biológicos parecem significativamente mais eficazes do que os cultivados convencionalmente.[9]Antioxidant levels and inhibition of cancer cell proliferation in vitro by extracts from organically and conventionally cultivated strawberries.

Se quiser saber o que constitui uma dieta vegetariana saudável, veja este artigo.

Cancro do Pâncreas

Infelizmente, é um dos cancros mais mortais, com apenas 6% dos doentes a sobreviverem mais de 5 anos depois do diagnóstico. Cerca de 20% dos casos poderão dever-se ao tabagismo. [10]Tobacco and the risk of pancreatic cancer: a review and meta-analysis. Outros factores de risco modificáveis incluem a obesidade e um consumo elevado de álcool. O estudo NIH-AARP, já referido, conseguiu verificar que o consumo de gorduras animais estava correlacionada com a doença, enquanto que a gordura vegetal não estava. [11]Dietary Fatty Acids and Pancreatic Cancer in the NIH-AARP Diet and Health Study

Há razões para acreditar que certos vírus que causam cancro em aves também podem afectar os seres humanos. Os trabalhadores que abatem frangos têm uma probabilidade 9 vezes superior de sofrer tanto de cancro hepático como pancreático, segundo um estudo em 30 000 trabalhadores. [12]A pilot case-cohort study of liver and pancreatic cancers in poultry workers. Quanto ao consumo de aves, o estudo EPIC (Investigação Europeia Prospectiva do Cancro e da Nutrição), que seguiu 477 000 pessoas durante uma década, verificou também um aumento de risco de cancro pancreático por cada 50 g diários de frango. [13]Meat and fish consumption and risk of pancreatic cancer: results from the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition.

Cancro do Esófago

Os principais factores de risco incluem o tabagismo, consumo elevado de álcool e o refluxo gástrico, em que os ácidos do estômago sobem pelo esófago e causam inflamação. Pessoas que comem carne têm o dobro da probabilidade de refluxo gástrico, comparados com vegetarianos.[14]Vegetarianism as a protective factor for reflux esophagitis: a retrospective, cross-sectional study between Buddhist priests and general population. A fibra dos alimentos vegetais parece também proteger da hérnia do hiato, em que parte do estômago é projetado acima do diafragma, e que pode levar ao refluxo gástrico. Uma revisão sistemática[15]Dietary fiber and the risk of precancerous lesions and cancer of the esophagus: a systematic review and meta-analysis. encontrou uma correlação entre ingestão de fibra e probabilidade de cancro do esófago.

Para mais informações, pode consultar o livro Como Não Morrer (em Portugal) ou Comer Para Não Morrer (no Brasil), escrito pelo médico Dr. Michael Greger, ou o seu site com vídeos traduzidos em português, onde se explica como as 15 principais doenças do mundo ocidental têm origem na alimentação dos ocidentais e como podem ser prevenidas através de uma dieta baseada em alimentos vegetais integrais não processados. Por exemplo, doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, doenças do cérebro, infecções, doenças hepáticas, insuficiência renal, etc.

Pode ver também este artigo que resume os benefícios dos diferentes vegetais.

Referências   [ + ]