Vegetarianismo e Infecções

0
564

Este artigo baseia-se na informação apresentada no site Nutritionfacts.org, que é organizado pelo médico Dr. Michael Greger.

Grande parte das infecções actualmente emergentes tem origem animal [1]Host Range and Emerging and Reemerging Pathogens. Por outro lado, as plantas parecem maximizar a eficácia do sistema imunitário. Por exemplo, realizou-se um teste de 83 voluntários com idades compreendidas entre 65 e 85 anos, a quem foi administrada a vacina da gripe. O grupo que comia mais de 5 porções de frutas e vegetais respondeu 82% melhor à vacina do que o grupo de controlo, resultando numa maior produção de anti-corpos protectores. [2]Effect of fruit and vegetable consumption on immune function in older people: a randomized controlled trial

Estratégias para aumentar a função imunitária

Brócolos

Nas membranas do intestino, há glóbulos brancos chamados linfócitos intraepiteliais, que servem como primeira linha de defesa contra os agentes patogénicos na comida. Estes linfócitos estão cobertos de “receptores de HA” (hidrocarboneto arílico), que activam os linfócitos.

Descobriu-se que os vegetais da família das crucíferas, como a couve-portuguesa (kale), brócolos, couve-flor e couves-de-bruxelas contêm compostos que activam os receptores de HA nos linfócitos intraepiteliais. Ou seja, o consumo destes vegetais activa essas células. [3]You AhR What You Eat: Linking Diet and Immunity.

Isto pode fazer parte da estratégia do corpo para se imunizar. Pensa-se que evoluímos para associar o consumo de vegetais a uma resposta imunitária, pois era à altura da refeição que essa resposta era mais necessária. Assim, se não comermos vegetais em todas as refeições, poderemos estar a pôr em causa a estratégia defensiva do nosso corpo.

Frutos vermelhos

Os frutos vermelhos podem contrariar, reduzir e reparar os danos resultantes do stress oxidativo e da inflamação. [4]Berry fruits for cancer prevention: current status and future prospects Recentemente, descobriu-se que também podem estimular os níveis das nossas células assassinas naturais.

Estas células são um tipo de glóbulos brancos que dão uma resposta rápida contra células cancerosas ou infectadas por vírus.

Num estudo, pediu-se que corredores de longa distância comessem 300 g de mirtilos todos os dias durante seis semanas. Normalmente, após um período de exercício prolongado, o número destas células assassinas naturais diminui bastante. No entanto, os atletas que comiam mirtilos chegaram a duplicar a quantidade normal destas células. [5]Effect of blueberry ingestion on natural killer cell counts, oxidative stress, and inflammation prior to and after 2.5 h of running Num outro estudo in vitro, a especiaria cardamomo provou também melhorar a actividade destas células assassinas naturais contra células de linfoma (um tipo de cancro).

Probióticos e Prebióticos

Alguns estudos demonstraram que tomar suplementos com bactérias benéficas (probióticos) pode ter efeitos estimuladores da imunidade. Esses efeitos podem durar até 3 semanas depois dos probióticos serem descontinuados. Num estudo clínico, observou-se também que as pessoas que tomam probióticos podem de facto ter menos constipações, com menos dias de baixa e menos sintomas[6]Randomised, double-blind and placebo-controlled study using new probiotic lactobacilli for strengthening the body immune defence against viral infections.

VegetaisNo entanto, talvez seja mais seguro e menos dispendioso alimentar as bactérias boas que já se encontram no intestino. O que comem elas? Fibra, encontrada em todo o tipo de alimentos vegetais, e um tipo de amido encontrado em leguminosas e cereais integrais. A estas substâncias que nutrem as bactérias boas chamam-se prebióticos.

Quando comemos alimentos vegetais frescos, podemos receber tanto probióticos (as bactérias boas) como prebióticos (os alimentos das bactérias boas).

Exercício

BicicletaO exercício é uma forma gratuita de estimular o sistema imunitário. Se deixarmos as crianças correrem por apenas 6 minutos, os níveis das células imunitárias em circulação aumentam 50%. [7]Do circulating leucocytes and lymphocyte subtypes increase in response to brief exercise in children with and without asthma? No outro extremo do ciclo de vida, um estudo verificou que um programa de 20 minutos de exercício por dia em mulheres idosas pode reduzir a probabilidade de terem doenças do sistema respiratório superior de 50% para 20%, ou para 8% nas mais experientes [8]Physical activity and immune function in elderly women

O exercício muito longo e intenso, por outro lado, pode aumentar o risco de infeção. Parte deste risco pode ser minorado com ingestão de levedura de cerveja.

Cogumelos

Os cogumelos poderão estimular a parte do sistema imunitário que combate as infeções, mas minorar a resposta inflamatória. Num estudo australiano, distribuíram pessoas em dois grupos. Um com a dieta habitual, e outro adicionando uma tigela de cogumelos brancos todos os dias. O grupo dos cogumelos viu a quantidade de IgA (um tipo de anticorpos) na saliva aumentar 50%. [9]Dietary intake of Agaricus bisporus white button mushroom accelerates salivary immunoglobulin A secretion in healthy volunteers

Infecções graves

A maior parte das intoxicações está ligada ao consumo de animais. Grande parte destes problemas graves de saúde ocorrem porque os animais têm intestinos cheios de bactérias, e nas condições de abate e esquartejamento, por vezes com mecanismos automáticos, algumas bactérias dos intestinos podem passar para a carne.

Salmonella

A Salmonella pode encontrar-se em ovos e no próprio frango. Estrelar ovos é o método mais arriscado, mas mesmo cozendo durante 8 minutos, a bactéria pode sobreviver. [10]The survival of salmonellas in shell eggs cooked under simulated domestic conditionsQuanto ao frango, há um grande perigo de contaminação cruzada. No intervalo desde a compra do frango até se pôr no forno, a bactéria pode contaminar mãos, utensílios e superfícies de cozinha.

Num estudo em que se pediu a 60 famílias que cozinhassem um frango cru, encontraram-se 2 patógenos graves (Salmonella e Campylobacter) em toda a cozinha: na tábua, utensílios, armários, na pega da porta do frigorífico e na do forno, etc. [11]The effectiveness of hygiene procedures for prevention of cross‐contamination from chicken carcases in the domestic kitchen O mesmo aconteceu quando deram instruções específicas de higienização com água quente e detergente. Mesmo quando as famílias receberam instruções para fazer a higienização com lixívia, ainda assim foram encontradas essas bactérias.

Yersinia

A Yersinia é um patógeno encontrado principalmente na carne de porco que pode provocar inflamação crónica dos olhos, rins, coração e articulações.

Clostridium difficile

A Clostridium difficile é uma bactéria que pode resistir à cocção prolongada, e que não é morta por soluções de limpeza.

Impacto da pecuária nos patógenos multi-resistentes

A Dra. Margaret Chan, Directora-Geral da Organização Mundial de Saúde, avisou que poderemos enfrentar um futuro em que os antibióticos deixem de funcionar, pelo aparecimento de estirpes resistentes aos antibióticos, originadas no uso não-discriminado de antibióticos na pecuária, com vista a maximizar a produção. Isto significaria que uma faringite ou um joelho raspado de uma criança poderiam voltar a ser mortais como nos tempos anteriores à existência de antibióticos. [12]WHO Director-General briefs UN on antimicrobial resistance

Para mais informações, pode consultar o livro Como Não Morrer, escrito pelo médico Dr. Michael Greger (que também tem um site com vídeos traduzidos em português), onde se explica como as 15 principais doenças do mundo ocidental têm origem na alimentação dos ocidentais e como podem ser prevenidas através de uma dieta baseada em alimentos vegetais integrais não processados. Por exemplo, doenças cardíacas, hipertensão, diabetesdoenças do cérebrocancros do sistema digestivo, etc.

Se quiser conhecer as recomendações do Dr. Greger para uma dieta equilibrada, à base de vegetais, veja este link.

Referências   [ + ]